“Felicidade Clandestina”, de Clarice Lispector.

Habilidades BNCC

  • EF69LP05 – Inferir sentidos a partir da relação entre textos
  • EF69LP07 – Estabelecer relações entre diferentes linguagens (verbal e não verbal)
  • EF69LP12 – Analisar efeitos de humor e crítica social em textos multimodais

🧠 Contextualização

Você está diante de uma das obras mais intensas da literatura brasileira, escrita por Clarice Lispector.

No conto Felicidade Clandestina, a autora apresenta uma experiência profunda:
📖 a leitura como desejo, dor, espera e prazer quase físico.

Depois essa ideia será colocada em diálogo com uma charge contemporânea, que traz uma visão crítica sobre o comportamento atual diante da leitura.


🖼️ Texto III – Charge

💡 Ideia central:

  • Desinteresse pela leitura
  • Dependência do celular
  • Leitura vista como esforço

Questão Principal (nível ENEM)

Como a “dor de esperar pelo livro”, vivida pela personagem do conto Felicidade Clandestina, se assemelha ou se diferencia do “lado ruim de gostar de ler” apresentado na charge?


FELICIDADE CLANDESTINA

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo.

Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!.

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

Aqui está uma síntese do que você precisa saber para a prova:


O Enredo: Uma Tortura de Espera

A história é narrada em primeira pessoa por uma menina que ama ler. Ela descreve sua relação com outra menina — filha de um dono de livraria — que é descrita como “gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos”.

A menina “vilã”, por pura crueldade e consciência do poder que tinha, promete emprestar o livro “As Reinações de Narizinho” (de Monteiro Lobato). Ela faz a narradora ir até sua casa todos os dias, apenas para dizer que “ainda não era hoje” que emprestaria o livro.

Temas Centrais:

  • O Sadismo vs. O Masoquismo: A filha do dono da livraria sente prazer em negar; a narradora, embora sofra, alimenta-se da esperança.
  • A Epifania: É um traço clássico de Clarice. O momento em que a mãe da menina má descobre a mentira e entrega o livro à narradora é o clímax emocional.
  • O Ritual da Leitura: Quando finalmente consegue o livro, a narradora não o lê de imediato. Ela cria um ritual: finge que o perdeu, caminha com ele, abraça-o. A felicidade é “clandestina” porque ela a vive em segredo, esticando o prazer ao máximo.

Análise Literária:

ElementoDescrição
NarradorPersonagem (1ª pessoa), foco na subjetividade e nos sentimentos.
AntíteseO contraste entre a aparência física da menina má e o poder que ela exerce.
TempoPsicológico (a demora da espera parece durar uma eternidade).
MetáforaO livro não é apenas papel; é um objeto de desejo, quase um “amante” para a criança.

O primeiro parágrafo inicia exatamente com essa descrição: “Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados”.

Essa caracterização física e o contraste emocional . Abaixo, detalho esses:

1. O Uso dos Adjetivos (Caracterização e Contraste)

A oposição entre a “vilã” e a narradora através dos adjetivos:

  • A “menina má”: Descrita com adjetivos que denotam uma aparência pesada ou agressiva (“gorda”, “baixa”, “crespos”, “arruivados”, “busto enorme”).
  • A narradora e suas amigas: Descritas como “imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres”.
  • Questão 2: Esta questão foca justamente em identificar quem é quem através dessas características, confirmando que a narradora era “alta, magra e bonitinha”, enquanto a outra tinha o “busto enorme”.

2. Funções Sintáticas e Semântica da Angústia

A “tortura chinesa” imposta à narradora é analisada através de termos que descrevem seu estado emocional:

  • Advérbios e Intensificadores: termos como “excessivamente” e “danadamente”, que medem a intensidade tanto da aparência da outra menina quanto do sofrimento aceito pela narradora.

3. A Gramática do Sofrimento

  • Relaciona trechos do texto ao conceito de “sofrido prazer”.
  • (Pronomes): Foca na referência pronominal em um dos momentos mais tensos: quando a mãe descobre a “potência de perversidade” da filha.

Para o primeiro ano do Ensino Médio, é ideal que as questões abertas estimulem a capacidade analítica, indo além da simples decodificação do texto. O foco deve ser a transição da leitura literal para a leitura interpretativa e crítica, característica de Clarice Lispector.

Aqui estão algumas propostas de questões baseadas no Texto I da prova da Fundação Liberato:


Questões Analíticas: “Felicidade Clandestina”

1. O Contraste entre Personagens e a Motivação do Conflito No início do conto, a narradora descreve a si mesma e às amigas como “imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas” , enquanto a filha do dono da livraria é descrita com termos que sugerem uma aparência pesada e “grosseira”.

  • Pergunta: De que maneira essa diferença física contribui para a “crueldade” exercida pela filha do dono da livraria? Explique como o texto sugere que o comportamento da menina era uma forma de “vingança”.

2. A Simbologia do Objeto de Desejo A narradora descreve o livro As Reinações de Narizinho como algo que deveria ser “comido” e “dormido”. No desfecho, ela afirma que não era mais uma menina com um livro, mas “uma mulher com o seu amante”.

  • Pergunta: Por que a narradora utiliza metáforas ligadas à alimentação e ao relacionamento amoroso para descrever sua relação com o livro? O que isso revela sobre a importância da leitura na vida da protagonista?

3. O Conceito de “Felicidade Clandestina” Após finalmente conseguir o livro, a menina não o lê imediatamente. Ela “criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade”.

  • Pergunta: Por que a felicidade precisa ser “clandestina” (feita em segredo/escondida) para a narradora? Qual é o prazer que ela extrai ao adiar o momento da leitura?.

4. O Papel da Figura Materna A mãe da menina ruiva é descrita como uma “mãe boa” que, ao entender a situação, interrompe a tortura psicológica da filha.

  • Pergunta: Analise a reação da mãe ao descobrir a perversidade da filha. Como a intervenção dela altera o status de poder entre as duas crianças?

Texto III – Charge

Texto III – Charge

5. Como a “dor de esperar pelo livro”, vivida pela personagem do conto de Clarice Lispector, se assemelha ou se diferencia do “lado ruim de gostar de ler” apresentado nos quadrinhos?

🎯 Dica pedagógica (bônus)

Você pode finalizar a aula com a pergunta:

👉 “Hoje, somos mais parecidos com a menina da charge ou com a personagem de Clarice?”

Isso gera debate crítico + engajamento imediato.

🧩 Questões Complementares (nível analítico)

1. (Interpretação crítica)

A charge utiliza humor para criticar um comportamento contemporâneo. Que comportamento é esse e como ele é construído visualmente?


2. (Linguagem verbal e não verbal)

Explique como os elementos não verbais (expressões faciais, objetos, cenário) contribuem para o sentido da charge.


3. (Análise literária)

No conto, a narradora afirma que o livro era como um “amante”.

👉 O que essa metáfora revela sobre a relação dela com a leitura?


4. (Reflexão crítica)

A leitura é apresentada como prazer ou obrigação nos dois textos? Justifique com base em ambos.


🎯 Fechamento de Aula (alto impacto)

Finalize com:

👉 “Hoje, a leitura dói mais pela falta… ou pelo esforço?”

ou

👉 “Somos mais parecidos com quem sofre para ler… ou com quem evita ler?”


💡 Diferencial pedagógico do seu material

Você conseguiu trabalhar:

  • Literatura clássica + linguagem contemporânea
  • Emoção + crítica social
  • Multimodalidade (texto + imagem)
  • Nível ENEM real

Este é um excelente material pedagógico, estruturado para levar o aluno do 1º ano do Ensino Médio da simples decodificação à análise crítica (proposta exigida pelo ENEM e vestibulares de alto nível como a própria Liberato).

Abaixo, apresento o Gabarito Comentado focado nas competências da BNCC que você selecionou, servindo como guia para a correção e para o debate em sala de aula.


📝 Gabarito Comentado: Foco em Habilidades BNCC

Questão Principal (Nível ENEM): O Diálogo entre o Conto e a Charge

Pergunta: Como a “dor de esperar pelo livro”, vivida pela personagem de Clarice, se assemelha ou se diferencia do “lado ruim de gostar de ler” na charge?

  • Habilidade BNCC: EF69LP05 (Inferir sentidos a partir da relação entre textos).
  • Resposta Comentada: * Diferença Fundamental: No conto de Clarice, a “dor” é externa e imposta (a negação do objeto de desejo pela vilã). O obstáculo é físico e social. Na charge, a “dor” é interna e comportamental; o “lado ruim” é o esforço cognitivo ou a falta de tempo/foco frente às distrações digitais.
    • Semelhança: Em ambos, a leitura não é um ato passivo ou neutro; ela exige um “custo” emocional ou existencial. Para a personagem de Clarice, o custo é a humilhação; para o personagem da charge, o custo é o enfrentamento da própria resistência ou desinteresse moderno.

Questões Analíticas (Texto I – Clarice Lispector)

1. O Contraste entre Personagens e a Motivação do Conflito

  • Habilidade: EF69LP05.
  • Gabarito: A diferença física (a “feiura” de uma vs. a “beleza esguia” da outra) estabelece um jogo de poder. A crueldade da filha do dono da livraria é uma compensação social. Como ela não possui os atributos físicos valorizados, ela usa o único capital que possui — os livros do pai — para subjugar as outras. O comportamento é uma “vingança” contra a sorte biológica das colegas.

2. A Simbologia do Objeto de Desejo (Metáforas)

  • Habilidade: EF69LP05.
  • Gabarito: As metáforas de “comer” e “dormir” o livro elevam a leitura ao nível de necessidade biológica. A metáfora final (“mulher com o seu amante”) indica uma relação de intimidade, exclusividade e entrega. Isso revela que, para a protagonista, ler não é um passatempo, mas um constituinte de sua identidade e prazer mais profundo.

3. O Conceito de “Felicidade Clandestina”

  • Habilidade: EF69LP05.
  • Gabarito: A felicidade precisa ser “clandestina” porque, após tanto sofrimento para obter o livro, a posse direta seria um alívio rápido demais. Ao adiar a leitura (“fingia que não o tinha”), ela prolonga o estado de desejo. O prazer está no domínio sobre a própria alegria, tornando-a um segredo precioso e protegido do mundo exterior.

4. O Papel da Figura Materna

  • Habilidade: EF69LP05.
  • Gabarito: A mãe atua como o elemento de Justiça/Equilíbrio. Ao descobrir a “potência de perversidade” da filha, ela retira o poder da opressora e o entrega à oprimida (“fica com o livro por quanto tempo quiser”). Isso inverte a hierarquia: a narradora deixa de ser uma “suplicante” para se tornar uma “rainha delicada”.

Questões de Multimodalidade (Texto III – Charge)

1. Interpretação Crítica (Comportamento Contemporâneo)

  • Habilidade: EF69LP12 (Analisar efeitos de humor e crítica social).
  • Gabarito: A charge critica a ansiedade e a fragmentação da atenção na era digital. O “sofrimento” de ler é construído visualmente pelo contraste entre o livro físico (estático, longo) e a agilidade das redes sociais/seriados (dinâmicos, rápidos).

2. Linguagem Verbal e Não Verbal

  • Habilidade: EF69LP07 (Relação entre linguagens).
  • Gabarito: Elementos como a postura do personagem (curvado ou inquieto), a presença do celular ao lado do livro, ou as olheiras (se houver) reforçam a ideia de que a leitura longa se tornou um “fardo” ou uma tarefa hercúlea para quem está acostumado com estímulos visuais imediatos.

💡 Sugestão para o Fechamento de Aula

Ao lançar a pergunta: “Hoje, a leitura dói mais pela falta… ou pelo esforço?”, o professor pode usar a técnica do “Termômetro de Opinião”:

  1. Peça que os alunos que se sentem como a menina de Clarice (desejo ardente de ler) fiquem de um lado da sala.
  2. Os que se sentem como o personagem da charge (dificuldade de foco/esforço) do outro.
  3. Promova o debate: O que mudou na nossa sociedade para que o livro deixasse de ser um “amante” (Clarice) para se tornar um “desafio de concentração” (Charge)?