“Os Sertões” de Euclides da Cunha
1. Um Livro Monumental e Controverso
Você sabia que um dos maiores clássicos da literatura brasileira é, na verdade, muito mais do que um romance? Estamos falando de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. Uma obra grandiosa e preciosa, que é uma mistura de literatura, sociologia, filosofia, história, geografia, jornalismo e antropologia. E mesmo sendo um relato de fatos, a visão pessoal do autor permeia cada página.
2. O Cenário da Tragédia: Canudos e a Teoria Determinista
O livro nasceu das anotações de Euclides da Cunha como correspondente de guerra. Ele foi enviado para cobrir a Guerra de Canudos, um conflito brutal que assombrou o interior da Bahia. A revolta, inicialmente vista como uma ameaça à recém-proclamada República, era na verdade um grito de socorro, uma expressão das profundas dificuldades sociais e do abandono que o povo sertanejo enfrentava.
Euclides da Cunha, adepto do determinismo – uma teoria que afirma que o homem é influenciado pelo meio, pela raça e pelo momento histórico – estruturou sua obra em três partes que refletem essa visão: A Terra, O Homem e A Luta.
3. A Guerra Desigual: Um Conflito Heroico e Cruel
Para sufocar a comunidade de Canudos, o governo enviou quatro expedições militares. As três primeiras falharam miseravelmente, apesar do número crescente de soldados. O desconhecimento da região e a resistência aguerrida dos sertanejos foram determinantes para essas derrotas.
A quarta expedição, com cerca de 8 mil homens, foi a definitiva. Euclides da Cunha não poupa detalhes ao relatar a desigualdade da luta, mostrando o heroísmo dos sertanejos, armados apenas com objetos rústicos, enfrentando um exército bem equipado. O autor chega a uma conclusão devastadora, expressa em uma de suas frases mais famosas: “E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo.”
4. O Homem Sertanejo: Força e Contradições
Na obra, Euclides da Cunha nos apresenta o homem sertanejo de uma forma que desafia as primeiras impressões. Ele escreve: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.”
No entanto, a descrição inicial choca: “É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo…” Euclides descreve uma figura aparentemente fatigada, com um andar bamboleante e a tendência a se recostar ou agachar. Mas essa aparência engana. O autor revela uma transformação surpreendente: basta um incidente que exija energia para que essa figura “vulgar” se transfigure no “aspecto dominador de um titã acobreado e potente”.
Essa força não é apenas física; é uma força forjada pela adversidade. O sertanejo é um forte porque o sertão é o lugar da dificuldade, não mais o perigo das feras, mas das condições precárias de vida e da violência dos coronéis. E é a partir dessa base que o autor se fixa na figura de Antônio Conselheiro, o carismático líder de Canudos.
5. Conclusão: Um Monumento Literário e um Alerta Atemporal
“Os Sertões” se tornou um verdadeiro monumento literário sobre o interior do Brasil. Mais do que um relato histórico, é uma reflexão profunda sobre a formação do nosso país, as suas contradições e o abandono de uma parte de sua população.
A obra de Euclides da Cunha é um lembrete atemporal de que as desigualdades e o heroísmo persistem. Já leu “Os Sertões”? Qual sua impressão sobre essa obra tão complexa e fascinante?
Analisar questões de vestibular e ENEM é uma excelente forma de se preparar. “Os Sertões” é uma obra muito cobrada, e as questões geralmente abordam a interdisciplinaridade, o determinismo, a descrição do sertanejo e a crítica social presente no livro.
Aqui estão algumas questões com comentários que podem te ajudar:
Questão 1 (Baseada em ENEM/Vestibulares)
Trecho: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. […] É desgracioso, desengonçado, torto. […] Entretanto, toda esta aparência de cansaço ilude. Nada é mais surpreendedor do que vê-la desaparecer de improviso. Naquela organização combalida operam-se, em segundos, transmutações completas. Basta o aparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe o desencadear das energias adormecidas. O homem transfigura-se.” (Euclides da Cunha, Os Sertões)
Enunciado: No fragmento de Os Sertões, Euclides da Cunha descreve o sertanejo ressaltando uma característica fundamental que se manifesta de forma contraditória em sua aparência e em sua ação. Essa característica e a perspectiva teórica que a fundamenta são, respectivamente:
a) A resignação, baseada no evolucionismo darwinista.
b) A astúcia, fundamentada no pragmatismo social.
c) A resistência, embasada no determinismo geográfico e racial.
d) A fé, explicada pelo misticismo religioso.
e) A adaptabilidade, ancorada no funcionalismo estrutural.
Comentário da Questão:
A questão explora a descrição do sertanejo e a base teórica de Euclides da Cunha.
- Análise do Trecho: O texto destaca que a aparência “desgraciosa” e “cansada” do sertanejo “ilude”, pois ele se “transfigura” e libera “energias adormecidas” quando exigido, mostrando uma força surpreendente. Isso aponta para a resistência.
- Análise das Perspectivas Teóricas: Euclides da Cunha é um autor que se baseia fortemente no Determinismo, que argumenta que o homem é moldado pelo meio (geográfico), pela raça e pelo momento histórico. A capacidade do sertanejo de se transformar e resistir é, para o autor, uma consequência direta da dureza do ambiente em que vive (determinismo geográfico) e de suas características “raciais” (um conceito da época).
- Eliminação das Alternativas:
- a) A resignação não é a característica principal; o texto fala de força e transformação.
- b) A astúcia não é o foco principal da descrição.
- d) A fé é importante em Os Sertões, mas não é a característica descrita neste trecho específico do sertanejo como “forte”.
- e) Funcionalismo estrutural é uma teoria sociológica posterior e não se aplica ao contexto de Os Sertões.
Portanto, a alternativa c) A resistência, embasada no determinismo geográfico e racial é a que melhor sintetiza a descrição e a teoria presentes no texto.
Questão 2 (Adaptada de ENEM)
Trecho: “Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo.” (Euclides da Cunha, Os Sertões)
Enunciado: A forte afirmação de Euclides da Cunha, presente na introdução de Os Sertões, revela a postura do autor diante da Guerra de Canudos. Essa postura é marcada por:
a) Uma visão imparcial e jornalística dos fatos, sem emitir juízos de valor.
b) A defesa intransigente da República e a condenação dos revoltosos como fanáticos.
c) O reconhecimento da tragédia de Canudos como resultado do abandono social e da incompreensão.
d) A exaltação do militarismo e da força do Estado na repressão dos movimentos populares.
e) Uma análise exclusivamente geográfica do conflito, ignorando as dimensões humanas.
Comentário da Questão:
Esta questão aborda a crítica social e política de Euclides da Cunha.
- Análise do Trecho: A frase “foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo” é extremamente forte e revela uma clara condenação da forma como a campanha de Canudos foi conduzida. O termo “refluxo para o passado” sugere que o evento representa um retrocesso civilizatório.
- Contexto da Obra: Embora Euclides inicialmente tenha ido a Canudos com uma visão de defensor da República, sua experiência no local o fez mudar de perspectiva. Ele passou a entender que a revolta era um sintoma de um problema social mais profundo: o abandono das populações do interior pelo Estado. A vitória militar foi, para ele, uma tragédia humana e social.
- Eliminação das Alternativas:
- a) A frase mostra claramente um juízo de valor, não imparcialidade.
- b) Embora a República fosse o ideal do autor inicialmente, a obra final condena a violência contra os sertanejos, e não a eles próprios.
- d) Pelo contrário, o livro é uma crítica à brutalidade da repressão.
- e) A obra é interdisciplinar e foca nas dimensões humanas, sociológicas e históricas, não apenas geográficas.
Portanto, a alternativa c) O reconhecimento da tragédia de Canudos como resultado do abandono social e da incompreensão é a que melhor reflete a postura final de Euclides da Cunha.
Espero que estas questões comentadas sejam úteis para seus estudos! Se tiver mais alguma dúvida ou quiser abordar outro aspecto de “Os Sertões”, é só perguntar.
