Gênero Discursivo: Conto – Avaliação: “Bruxas não existem” – Moacyr Scliar
Texto: “Bruxas não existem” – Moacyr Scliar
Gênero Discursivo: Conto – Avaliação de Leitura e Análise Textual
Instruções: Leia o texto com atenção e responda às questões a seguir. As respostas devem ser marcadas no espaço correspondente.
O conto é um gênero narrativo de ficção. Sua principal característica é a concisão, ou seja, a narrativa é curta e focada em um único núcleo de conflito. O enredo se desenrola em torno de um único acontecimento relevante, envolvendo poucos personagens e um espaço e tempo limitados.
Características
- Linguagem: Geralmente objetiva e direta, mas pode ter momentos de grande lirismo e subjetividade.
- Narrador: Pode ser em primeira pessoa (narrador-personagem) ou em terceira pessoa (narrador-observador ou onisciente).
- Personagens: Em geral, são poucos e sua psicologia é apresentada de forma mais direta, sem aprofundamento excessivo.
- Estrutura: Segue a progressão clássica de uma narrativa:
- Situação inicial: Apresenta o cenário e os personagens.
- Conflito: O problema ou obstáculo que move a história.
- Clímax: O ponto de maior tensão da narrativa.
- Desfecho: A resolução do conflito, que pode ser surpreendente ou previsível.
Finalidade
A finalidade do conto é múltipla. Ele pode ter a função de entreter, de apresentar uma reflexão sobre a vida, de criticar um aspecto da sociedade ou até mesmo de provocar um sentimento específico, como medo ou surpresa, no leitor.
Bruxas não existem – Moacyr Scliar
Quando eu era garoto, acreditava em bruxas, mulheres malvadas que passavam o tempo todo maquinando coisas perversas. Os meus amigos também acreditavam nisso. A prova para nós era uma mulher muito velha, uma solteirona que morava numa casinha caindo aos pedaços no fim de nossa rua. Seu nome era Ana Custódio, mas nós só a chamávamos de “bruxa”.
Era muito feia, ela; gorda, enorme, os cabelos pareciam palha, o nariz era comprido, ela tinha uma enorme verruga no queixo. E estava sempre falando sozinha. Nunca tínhamos entrado na casa, mas tínhamos a certeza de que, se fizéssemos isso, nós a encontraríamos preparando venenos num grande caldeirão.
Nossa diversão predileta era incomodá-la. Volta e meia invadíamos o pequeno pátio para dali roubar frutas e quando, por acaso, a velha saía à rua para fazer compras no pequeno armazém ali perto, corríamos atrás dela gritando “bruxa, bruxa!”.
Um dia encontramos, no meio da rua, um bode morto. A quem pertencera esse animal nós não sabíamos, mas logo descobrimos o que fazer com ele: jogá-lo na casa da bruxa. O que seria fácil. Ao contrário do que sempre acontecia, naquela manhã, e talvez por esquecimento, ela deixara aberta a janela da frente. Sob comando do João Pedro, que era o nosso líder, levantamos o bicho, que era grande e pesava bastante, e com muito esforço nós o levamos até a janela. Tentamos empurrá-lo para dentro, mas aí os chifres ficaram presos na cortina.
– Vamos logo – gritava o João Pedro -, antes que a bruxa apareça. E ela apareceu. No momento exato em que, finalmente, conseguíamos introduzir o bode pela janela, a porta se abriu e ali estava ela, a bruxa, empunhando um cabo de vassoura. Rindo, saímos correndo. Eu, gordinho, era o último.
E então aconteceu. De repente, enfiei o pé num buraco e caí. De imediato senti uma dor terrível na perna e não tive dúvida: estava quebrada. Gemendo, tentei me levantar, mas não consegui. E a bruxa, caminhando com dificuldade, mas com o cabo de vassoura na mão, aproximava-se. Àquela altura a turma estava longe, ninguém poderia me ajudar. E a mulher sem dúvida descarregaria em mim sua fúria.
Em um momento, ela estava junto a mim, transtornada de raiva. Mas aí viu a minha perna, e instantaneamente mudou. Agachou-se junto a mim e começou a examiná-la com uma habilidade surpreendente.
– Está quebrada – disse por fim. – Mas podemos dar um jeito. Não se preocupe, sei fazer isso. Fui enfermeira muitos anos, trabalhei em hospital. Confie em mim.
Dividiu o cabo de vassoura em três pedaços e com eles, e com seu cinto de pano, improvisou uma tala, imobilizando-me a perna. A dor diminuiu muito e, amparado nela, fui até minha casa. “Chame uma ambulância”, disse a mulher à minha mãe. Sorriu.
Tudo ficou bem. Levaram-me para o hospital, o médico engessou minha perna e em poucas semanas eu estava recuperado. Desde então, deixei de acreditar em bruxas. E tornei-me grande amigo de uma senhora que morava em minha rua, uma senhora muito boa que se chamava Ana Custódio.
Com base nas características do texto, “Bruxas não existem” de Moacyr Scliar é um conto.
Embora o narrador utilize a primeira pessoa e relate uma experiência de sua infância, o texto possui elementos de ficção que o afastam do gênero de relato ou memórias puramente autobiográficas:
- Personagens típicos: A “bruxa” é uma figura típica, e o narrador e seus amigos representam um grupo de crianças preconceituosas.
- Estrutura narrativa clássica: O texto segue a estrutura de um conto, com uma situação inicial (o preconceito), um conflito (a queda do narrador e a aproximação da “bruxa”), um clímax (a revelação da bondade da mulher) e um desfecho que traz uma resolução e um aprendizado moral.
- Finalidade moralizante: A principal função do texto é transmitir uma mensagem sobre o amadurecimento e a superação do preconceito, uma característica comum dos contos. O título irônico (“Bruxas não existem”) reforça essa intenção, desfazendo a figura mítica no final.
Ainda que a história possa ter sido inspirada em uma experiência real do autor, a forma como ela é narrada, com foco em uma jornada de transformação e em um enredo bem definido, a enquadra no gênero de conto
Avaliação de Leitura e Análise Textual
Texto: “Bruxas não existem” – Moacyr Scliar
Instruções: Leia o texto com atenção e responda às questões a seguir. As respostas devem ser marcadas no espaço correspondente.
Questões
- Gênero Discursivo: Qual opção melhor caracteriza o gênero discursivo do texto “Bruxas não existem”?
a) Um relato de memórias, pois o narrador resgata uma lembrança de sua infância para refletir sobre um aprendizado.
b) Um conto de fadas moderno, devido à presença da figura de uma “bruxa” e de um desfecho moralizante.
c) Uma crônica argumentativa, já que o autor utiliza uma história pessoal para defender um ponto de vista sobre o preconceito.
d) Uma fábula, pois o texto utiliza personagens com características humanas para transmitir uma moral explícita no final.
- Finalidade do Texto: Qual é a principal finalidade comunicativa do texto, considerando sua estrutura e temática?
a) Divertir o leitor com uma história de aventura infantil e humor.
b) Informar sobre a origem de mitos e lendas urbanas em comunidades pequenas.
c) Instigar a reflexão sobre o julgamento precipitado e a desconstrução de preconceitos baseados na aparência.
d) Descrever o cotidiano e os hábitos de uma senhora idosa e solitária.
- Tema Central: O tema central do conto se manifesta na evolução da percepção do narrador. Qual das alternativas a seguir expressa de forma mais precisa o tema do texto?
a) A solidão na terceira idade e a indiferença da sociedade em relação aos idosos.
b) A importância da união e da amizade entre as crianças para enfrentar os desafios da infância.
c) A superação do medo irracional e a vitória da razão sobre a superstição.
d) A desconstrução de estereótipos e a descoberta da verdadeira essência humana por trás das aparências.
- Fato vs. Opinião: Assinale a alternativa em que a passagem extraída do texto contém, predominantemente, uma opinião do narrador-personagem.
a) “Seu nome era Ana Custódio, mas nós só a chamávamos de ‘bruxa’.”
b) “E a bruxa, caminhando com dificuldade, mas com o cabo de vassoura na mão, aproximava-se.”
c) “Era muito feia, ela; gorda, enorme, os cabelos pareciam palha, o nariz era comprido…”
d) “Chame uma ambulância’, disse a mulher à minha mãe. Sorriu.”
- Relações Lógico-Discursivas: No trecho: “Um dia encontramos, no meio da rua, um bode morto. A quem pertencera esse animal nós não sabíamos, mas logo descobrimos o que fazer com ele…”, a palavra destacada estabelece qual tipo de relação lógico-discursiva?
a) Conclusão, indicando um resultado lógico da descoberta.
b) Oposição, introduzindo uma ideia que contradiz a anterior.
c) Adição, somando uma informação à anterior.
d) Alternância, apresentando uma escolha entre duas possibilidades.
- Relações Lógico-Discursivas (2): Na frase: “Ao contrário do que sempre acontecia, naquela manhã, e talvez por esquecimento, ela deixara aberta a janela…”, a oração em destaque estabelece uma relação de:
a) Causa, explicando o motivo pelo qual a janela estava aberta.
b) Concessão, apresentando uma ideia que não impede a ação principal.
c) Conformidade, indicando que a situação estava de acordo com o esperado.
d) Comparação, estabelecendo uma relação de contraste com uma situação habitual.
- Advérbio: No trecho: “De repente, enfiei o pé num buraco e caí.”, o advérbio em destaque cumpre um papel fundamental na narrativa. Qual é a sua função?
a) Indicar uma ação planejada e esperada pelo narrador, intensificando a dramaticidade.
b) Marcar uma mudança súbita e inesperada no tempo da narrativa, alterando o rumo da história.
c) Qualificar a maneira como o narrador agiu, demonstrando sua pressa.
d) Expressar uma dúvida do narrador em relação ao evento que ocorreu.
- Advérbio (2): O uso do advérbio “instantaneamente” no trecho “Mas aí viu a minha perna, e instantaneamente mudou.” é crucial para o entendimento da virada narrativa. Qual é o efeito de sentido gerado por esse advérbio?
a) Sugere que a mudança de atitude da mulher foi gradual, indicando sua reflexão sobre a situação.
b) Destaca a rapidez e a naturalidade com que a mulher deixou de lado a raiva para se concentrar em ajudar.
c) Mostra que a mulher agiu por impulso, sem pensar nas consequências de sua ação.
d) Causa uma sensação de surpresa no leitor, que esperava uma reação mais lenta por parte da personagem.
- Relações Lógico-Discursivas (3): No parágrafo final, o narrador afirma: “Tudo ficou bem. Levaram-me para o hospital, o médico engessou minha perna e em poucas semanas eu estava recuperado.” A conjunção em destaque tem a função de:
a) Adicionar informações que detalham o processo de cura e recuperação.
b) Opor uma ideia à outra, mostrando um contraste entre o acidente e a recuperação.
c) Estabelecer uma relação de causa e consequência entre o tratamento e a recuperação.
d) Introduzir uma conclusão sobre os fatos apresentados.
- Relações Lógico-Discursivas (4): O trecho “A quem pertencera esse animal nós não sabíamos, mas logo descobrimos o que fazer com ele…” e o trecho “E a bruxa, caminhando com dificuldade, mas com o cabo de vassoura na mão, aproximava-se.” utilizam a mesma conjunção. No entanto, as relações que ela estabelece são sutilmente diferentes. Qual a melhor descrição dessa diferença?
a) No primeiro, indica adição de informações; no segundo, indica oposição.
b) Em ambos os casos, indica oposição, mas no primeiro entre uma falta de conhecimento e uma descoberta, e no segundo entre uma dificuldade física e uma atitude.
c) No primeiro, indica contraste; no segundo, indica uma causa.
d) Em ambos os casos, indica uma ideia de contraste, mas no primeiro a descoberta é surpreendente e no segundo, a aproximação é ameaçadora apesar da dificuldade.
Gabarito Comentado
1. Resposta: a)
- Comentário: O texto é narrado na primeira pessoa (“Quando eu era garoto…”), e o narrador adulto reflete sobre um evento marcante de sua infância que o fez mudar de perspectiva. Essa característica define o gênero de relato de memórias, que resgata fatos do passado com uma intenção reflexiva.
2. Resposta: c)
- Comentário: A história não se limita a descrever fatos ou a divertir. Sua finalidade principal é moral e reflexiva. Ao mostrar a transformação do narrador, o texto instiga o leitor a questionar seus próprios preconceitos e a ir além das aparências, demonstrando um propósito de reflexão e conscientização.
3. Resposta: d)
- Comentário: O conto constrói a figura de uma “bruxa” baseada em estereótipos físicos e sociais (“feia,” “solteirona,” “falando sozinha”). O clímax e o desfecho da narrativa, no entanto, revelam que a verdadeira essência da personagem (gentileza e habilidade) é completamente diferente da sua aparência, confirmando o tema da desconstrução de estereótipos.
4. Resposta: c)
- Comentário: Fatos são eventos ou descrições objetivas (ex: “Seu nome era Ana Custódio”). A passagem “Era muito feia, ela; gorda, enorme, os cabelos pareciam palha…” contém opiniões e juízos de valor do narrador e de seus amigos. A palavra “feia” e a comparação “cabelos pareciam palha” são percepções subjetivas e não fatos.
5. Resposta: b)
- Comentário: A conjunção “mas” introduz uma ideia que contrasta ou se opõe à anterior. A primeira parte da frase (“A quem pertencera esse animal nós não sabíamos”) é uma falta de conhecimento. A segunda parte (“mas logo descobrimos o que fazer com ele”) é uma ação decorrente dessa falta, que se opõe à passividade. A relação é de oposição (oposição entre saber e agir).
6. Resposta: d)
- Comentário: A expressão “Ao contrário do que sempre acontecia” estabelece uma relação de comparação por contraste entre a situação habitual (janela fechada) e a situação excepcional daquele dia (janela aberta).
7. Resposta: b)
- Comentário: O advérbio “De repente” indica uma ação que ocorre de forma rápida e inesperada, sem aviso prévio. No contexto da narrativa, ele marca o início da sequência de eventos que culminará na grande mudança da história, funcionando como um divisor de águas, a partir do qual tudo muda.
8. Resposta: b)
- Comentário: A palavra “instantaneamente” enfatiza a velocidade e a ausência de hesitação na mudança de atitude da mulher. Ao ver a perna quebrada do narrador, sua raiva desaparece de forma imediata e é substituída por uma atitude de cuidado, revelando sua verdadeira natureza.
9. Resposta: a)
- Comentário: A conjunção “e” é a principal conjunção aditiva da Língua Portuguesa. No trecho, ela não estabelece oposição ou causa, mas simplesmente adiciona informações em sequência, listando as etapas do processo de cura e recuperação do narrador.
10. Resposta: b)
- Comentário: Em ambos os casos, a conjunção “mas” atua como uma conjunção adversativa, indicando oposição. No primeiro trecho, a oposição se dá entre a ignorância (“não sabíamos”) e a ação (“descobrimos o que fazer”). No segundo, a oposição é entre a dificuldade de locomoção da mulher (“caminhando com dificuldade”) e a sua atitude ameaçadora (estar com o “cabo de vassoura na mão”), que se contrapõe à sua fragilidade física.
