Aula de Literatura EM: Análise d do conto “O Homem que Sabia Javanês”
Aula de Literatura para o Ensino Médio: O Gênero Conto – Análise de “O Homem que Sabia Javanês”
Objetivos da Aula:
- Compreender as características do gênero conto.
- Analisar o conto “O Homem que Sabia Javanês” e identificar elementos típicos do gênero.
- Discutir as técnicas de construção narrativa e o uso da ironia no conto.
- Desenvolver habilidades de interpretação e produção textual.
Tempo estimado: 1 hora e 30 minutos
O HOMEM QUE SABIA JAVANÊS
Em uma confeitaria, certa vez, ao meu amigo Castro, contava eu as partidas que havia pregado às convicções e às respeitabilidades, para poder viver. Houve mesmo, uma dada ocasião, quando estive em Manaus, em que fui obrigado a esconder a minha qualidade de bacharel, para mais confiança obter dos clientes, que afluíam ao meu escritório de feiticeiro e adivinho.
Contava eu isso.
O meu amigo ouvia-me calado, embevecido, gostando daquele meu Gil Blas vivido, até que, em uma pausa da conversa, ao esgotarmos os copos, observou a esmo:
— Tens levado uma vida bem engraçada, Castelo!
— Só assim se pode viver… Isto de uma ocupação única: sair de casa a certas horas, voltar a outras, aborrece, não achas? Não sei como me tenho aguentado lá, no consulado!
— Cansa-se; mas, não é disso que me admiro. O que me admira, é que tenhas corrido tantas aventuras aqui, neste Brasil imbecil e burocrático.
— Qual! Aqui mesmo, meu caro Castro, se podem arranjar belas páginas de vida. Imagina tu que eu já fui professor de javanês!
— Quando? Aqui, depois que voltaste do consulado?
— Não; antes. E, por sinal, fui nomeado cônsul por isso.
— Conta lá como foi. Bebes mais cerveja?
— Bebo.
Mandamos buscar mais outra garrafa, enchemos os copos, e continuei:
— Eu tinha chegado, havia pouco, ao Rio e estava literalmente na miséria. Vivia fugido de casa de pensão em casa de pensão, sem saber onde e como ganhar dinheiro, quando li no Jornal do Comércio o anúncio seguinte: “Precisa-se de um professor de língua javanesa. Cartas, etc.” Ora, disse cá comigo, está ali uma colocação que não terá muitos concorrentes; se eu capiscasse quatro palavras, ia apresentar-me.
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Saí do café e andei pelas ruas, sempre a imaginar-me professor de javanês, ganhando dinheiro, andando de bonde e sem encontros desagradáveis com os“cadáveres”. Insensivelmente dirigi-me à Biblioteca Nacional. Não sabia bem que livro iria pedir;mas, entrei, entreguei o chapéu ao porteiro, recebi a senha e subi. Na escada, acudiu-me pedir a Grande Encyclopédie, letra J, a fim de consultar o artigo relativo a Java e a língua javanesa. Dito e feito. Fiquei sabendo, ao fim de alguns minutos, que Java era uma grande ilha do arquipélago de Sonda, colônia holandesa, e o javanês, língua aglutinante do grupo maleo-polinésico, possuía uma literatura digna de nota e escrita em caracteres derivados do velho alfabeto hindu.
A Encyclopédie dava-me indicação de trabalhos sobre a tal língua malaia e não tive dúvidas em consultar um deles. Copiei o alfabeto, a sua pronunciação figurada e saí. Andei pelas ruas, perambulando e mastigando letras.
Na minha cabeça dançavam hieróglifos; de quando em quando consultava as minhas notas; entrava nos jardins e escrevia estes calungas na areia para guardá-los bem na memória e habituar a mão a escrevê-los.
À noite, quando pude entrar em casa sem ser visto, para evitar indiscretas perguntas do encarregado, ainda continuei no quarto a engolir o meu “a-b-c” malaio, e, com tanto afinco levei o propósito que, de manhã, o sabia perfeitamente.
Convenci-me que aquela era a língua mais fácil do mundo e saí; mas não tão cedo que não me encontrasse com o encarregado dos aluguéis dos cômodos:
— Senhor Castelo, quando salda a sua conta?
Respondi-lhe então eu, com a mais encantadora esperança:
— Breve… Espere um pouco… Tenha paciência… Vou ser nomeado professor de javanês,e…
Por aí o homem interrompeu-me:
— Que diabo vem a ser isso, Senhor Castelo?
Gostei da diversão e ataquei o patriotismo do homem:
— É uma língua que se fala lá pelas bandas do Timor. Sabe onde é?
Oh! Alma ingênua! O homem esqueceu-se da minha dívida e disse-me com aquele falar forte dos portugueses:
— Eu cá por mim, não sei bem; mas ouvi dizer que são umas terras que temos lá para os lados de Macau. E o senhor sabe isso, Senhor Castelo?
Animado com esta saída feliz que me deu o javanês, voltei a procurar o anúncio. Lá estava ele. Resolvi animosamente propor-me ao professorado do idioma oceânico. Redigi a resposta, passei pelo Jornal e lá deixei a carta. Em seguida, voltei à biblioteca e continuei os meus estudos de javanês. Não fiz grandes progressos nesse dia, não sei se por julgar o alfabeto javanês o único saber necessário a um professor de língua malaia ou se por ter me empenhado mais na bibliografia e história literária do idioma que ia ensinar. […]
BARRETO, Lima. O homem que sabia javanês e outros contos. Curitiba: Polo Editorial do Paraná, 1997. (Fragmento).
Plano de Aula
1. Introdução ao Gênero Conto (15 minutos)
Objetivo: Apresentar o gênero conto e suas características principais.
- Definição de conto:
O conto é uma narrativa curta que geralmente aborda um único episódio, com poucos personagens e um desenvolvimento rápido do enredo. A história tende a apresentar um conflito central, que é resolvido de forma ágil, com foco em um único tema ou situação. - Características do conto:
- Narrativa curta e objetiva.
- Enredo simples e direto.
- Personagens bem definidos, mas com desenvolvimento limitado.
- Conflito resolvido rapidamente.
- Muitas vezes, utiliza ironia, crítica social ou moral.
- Exemplo de outros contos:
O professor pode citar obras de escritores clássicos, como Machado de Assis (“A Cartomante”) ou Lima Barreto (“O Alienista”).
2. Leitura do Conto “O Homem que Sabia Javanês” (20 minutos)
Objetivo: Ler e compreender o conteúdo do conto.
- Atividade:
Dividir os alunos em grupos e pedir que leiam o trecho selecionado de “O Homem que Sabia Javanês” de Lima Barreto. Caso o tempo permita, leia o conto inteiro. Durante a leitura, os alunos devem identificar o personagem principal, o enredo e o conflito.
3. Análise do Conto (25 minutos)
Objetivo: Analisar os elementos narrativos do conto, como construção do personagem, enredo, e o uso da ironia.
- Discussão em classe:
Após a leitura, a turma deve discutir as seguintes questões:- Quem é o protagonista? Quais são seus objetivos e características principais?
- Qual é o conflito central da história? Como ele é resolvido?
- Como a ironia é utilizada no conto? (Exemplo: o personagem finge saber javanês e acaba criando situações engraçadas e inusitadas.)
- Quais são as características do narrador? Como ele se posiciona em relação aos outros personagens? (Narrador em primeira pessoa, com tom confessional e irônico.)
- Quais elementos fazem o conto ser típico de Lima Barreto? (Crítica social e uso da ironia.)
- Reflexão sobre o gênero conto:
- Como a estrutura curta do conto ajuda a contar uma história de maneira eficaz?
- O que os alunos percebem sobre a construção do enredo e a resolução rápida do conflito?
4. Produção de Texto (20 minutos)
Objetivo: Estimular a criação de um conto curto, inspirando-se no estilo de Lima Barreto.
- Atividade:
Proponha que os alunos escrevam um conto curto, inspirado no estilo irônico de Lima Barreto. O conto deve abordar uma situação do cotidiano, mas com uma abordagem inusitada ou engraçada, utilizando ironia e humor. Dicas para o texto:- Crie um conflito simples, mas interessante, que envolva uma situação absurda ou engraçada.
- Desenvolva um personagem comum que se coloca em uma situação inesperada.
- Use um tom irônico, como no conto lido, onde o personagem se engana ao acreditar que sabe algo importante (como o javanês).
- Exemplo:
Um aluno pode criar uma história sobre alguém que tenta aprender uma nova habilidade (como tocar violão, cozinhar, etc.), mas acaba criando situações engraçadas por não dominar o que está aprendendo.
5. Conclusão e Debate (10 minutos)
Objetivo: Refletir sobre o conto e discutir a aplicação do gênero na produção dos alunos.
- Atividade:
Peça que alguns alunos compartilhem seus contos com a turma. Caso não seja possível, permita que finalizem em casa e tragam na próxima aula. - Reflexão final:
- O que mais gostaram no conto?
- Como a ironia e o humor influenciam a mensagem do conto?
- Como a estrutura curta ajudou a construção do enredo e do personagem?
Materiais Necessários:
- Texto de “O Homem que Sabia Javanês” (impresso ou digital).
- Quadro e marcador para anotações.
- Papel e caneta para os alunos escreverem seus contos.
Conclusão:
Essa aula sobre o gênero conto visa proporcionar uma compreensão profunda da estrutura narrativa de um conto, com ênfase nas características do gênero e no estilo único de Lima Barreto. A análise do texto, junto à produção criativa dos alunos, permite que eles se envolvam de forma prática e reflexiva com a literatura.
Gabarito – Análise do Conto “O Homem que Sabia Javanês”
1. Características do Conto:
- Narrativa curta e objetiva: A história é concisa, com um enredo direto e sem desvios complexos.
- Enredo simples e direto: A trama gira em torno de um personagem, Castelo, que inventa saber javanês para conseguir um emprego, enfrentando situações irônicas e engraçadas.
- Personagens bem definidos, mas com desenvolvimento limitado: O protagonista, Castelo, e o amigo, Castro, são os personagens centrais. O personagem de Castelo é cômico e um tanto egoísta, mas sua caracterização é bem clara, sem grandes desenvolvimentos emocionais.
- Conflito resolvido rapidamente: O conflito é a tentativa de Castelo de se passar por um professor de javanês, e a resolução vem com a revelação de que ele é apenas um impostor.
- Uso de ironia, crítica social e moral: A história utiliza humor e ironia, especialmente no modo como Castelo manipula a situação para se beneficiar, e a crítica está no comportamento da sociedade e da busca por status.
2. Personagens:
- Castelo (protagonista): Um personagem que, para sobreviver, utiliza artimanhas e mentiras. Ele é um homem que finge saber javanês e se envolve em situações cômicas.
- Castro (amigo do protagonista): Ouve a história de Castelo com interesse, sendo o interlocutor durante a narrativa. Não há grande desenvolvimento de seu personagem.
3. Conflito:
- O conflito é a tentativa de Castelo de se passar por um professor de javanês para melhorar sua situação financeira, utilizando artifícios e mentiras.
4. Ironia no conto:
- A ironia está em todo o processo de Castelo fingindo saber javanês, ao ponto de enganar a todos, incluindo o responsável pelo aluguel de seu cômodo, e criar uma situação cômica. Ele se considera um grande conhecedor, mas, na realidade, tudo não passa de uma mentira. A ironia também é perceptível na atitude dos outros personagens, como o encarregado dos aluguéis, que acredita na história sem questionar.
5. Técnica narrativa:
- O conto é narrado em primeira pessoa, o que permite uma visão íntima e pessoal do protagonista, reforçando o tom irônico e cômico da narrativa.
- O narrador utiliza um tom confessional, contando suas artimanhas de forma quase jocosa.
6. Elementos de crítica social:
- A história critica as aparências e a busca por status na sociedade, evidenciada pela maneira como Castelo se aproveita da ignorância alheia para conquistar um cargo, utilizando uma língua que ele mesmo mal compreende.

GOSTEI MUITO DO PLANO DESTA AULA, É AGRADÁVEL ,INTERESSANTE E CÔMICA. OS ALUNOS VÃO SE INTRESSAR BASTANTE.
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